sexta-feira, 1 de abril de 2011

Os descaminhos da tragédia contemporânea

por Luciana Romagnolli

*Crítica da peça Doce Ismênia, publicada no jornal O Tempo.



Na tragédia grega, Ismênia é uma personagem marginal. Nunca tentou tomar as rédeas do próprio destino como o pai, Édipo. Nem demonstrou a força da irmã Antígona, que enfrentou o rei para dar enterro digno ao irmão. Ismênia nasceu sob o signo da passividade, figurante de tramas alheias. Encontrar uma história individual para a personagem foi o impulso seguido por Rita Clemente no espetáculo "Doce Ismênia" (foto de Guto Muniz), em cartaz no Oi Futuro.

Em companhia de Daniel Toledo (também assistente de direção), Rita desenvolveu uma dramaturgia que trouxesse a questão ao mundo contemporâneo. Para tanto, vislumbrou um caminho que atinge uma multidão de anônimos de qualquer época: a tensão entre a história que uma pessoa gostaria de ter vivido e aquela que se impõe a ela.

Escorada nessa proposição potente - e nas habilidades da diretora como atriz experiente, a exemplo do que já se viu no espetáculo "Dias Felizes" -, a montagem de "Doce Ismênia" apresenta a personagem como uma mulher solitária e retraída, cujo sonho máximo é a vida simples, mas a quem espreita o destino trágico da matriz familiar.

A expectativa da morte precoce é acirrada pela presença do pai (Isaías Campara Neto) e da irmã (Patrícia Siqueira), sentados à esquerda, em cadeiras de plateia, tal qual um coro grego, vertido em representantes do público teatral. É interessante o exercício de metalinguagem, que abre lacunas textuais para comentários leves sobre os rumos da encenação, além de referências à figura de Édipo - Antígona, por sua vez, fica quase incógnita.

No outro lado do cenário, iluminado por postes de luz altos e recurvados, um mecânico (Olavo de Castro) repara a carcaça de um fusca, contrapondo à malfadada tragédia a chance de a personagem cumprir um destino comum.

Obstáculos. A montagem não chega a elaborar uma proposta para as questões que deslocam Ismênia de sua marginalidade histórica. Antes, apresenta no palco o problema do qual parte e seus descaminhos. A decisão faz lembrar os conflitos e incertezas sobre "Barbazul" que o Teatro Andante pôs em cena.

O primeiro obstáculo que enfrentam é pensar o que seria uma tragédia contemporânea. A resposta aponta para um mundo onde já não há duelos. Opta-se, então, pelo acidente de carro.

Sem negar que o trânsito possa ser motivo trágico hoje, fica ao público a possibilidade de contestar uma escolha que retira a tragédia do violento embate humano e a deposita no choque homem-máquina, sem explorar mais o componente humano da irremediável solidão de Ismênia.

A essa inconsistência no desenvolvimento da personagem, junta-se um desnível nítido entre as qualidades dos intérpretes, o que esvazia as piadas metateatrais entregues a Isaías Campara Neto, enquanto as falas de Patrícia Siqueira vêm desprovidas de inflexão. Seus personagens se tornam acessórios. Para a atriz Rita Clemente, é ocasião de sobressair e demonstrar sua destreza. Para a diretora Rita Clemente, faltou o equilíbrio.

Agenda
O que. "Doce Ismênia"
Quando . Hoje, às 21h; amanhã, às 19h e 21h; e dom., às 19h
Onde. Teatro do Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001)
Quanto. R$ 15

Um comentário:

ASSESSORIA disse...

Olá Luciana, minha assessoria de comunicação disse que você havia feito uma crítca. Só agora pude ler. Suas 'idéias' nos ajudam a caminhar.Obrigada pelo interesse.
Rita Clemente