quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Bob Wilson retorna ao palco como ator e diretor em “A Última Gravação de Krapp”

por Luciana Romagnolli

Diálogo entre o passado e o presente

Porto Alegre. Prestes a completar 70 anos na próxima terça-feira, Bob Wilson veio ao Brasil apresentar, somente no Porto Alegre em Cena, “A Última Gravação de Krapp”, seu primeiro trabalho solo como ator nos últimos dez anos, desde que fez o monólogo “Hamlet”. Mais conhecido como o encenador que remodelou a visão do teatro no século XX, elaborando projetos cênicos em que luz, cenografia e sonoplastia são os elementos mais importantes – ao tecerem uma rede na qual se encaixarão o texto e os atores, com gestualidade calculada –, Wilson mostrou, desta vez, também como sua própria atuação se inscreve em cena.

Novamente o norte-americano optou por um texto de Samuel Beckett – aliás, considerado o mais autobiográfico do dramaturgo irlandês. "Quando dirijo um trabalho, crio uma estrutura, e quando todos os elementos visuais estão no lugar, tenho uma moldura para os performers preencherem. Se a estrutura é sólida, então os artistas podem se sentir livres dentro dela. Aqui, na maior parte, a estrutura é dada, e preciso achar a minha liberdade na estrutura de Beckett", define Wilson.

O encenador declarou não ter sentido falta de atuar nesse intervalo. “De tempos em tempos, atuo. É bom para mim como diretor ter a mesma experiência que os atores têm no meu trabalho”, disse o encenador, durante a pequena coletiva concedida no domingo, dia seguinte à estreia (ele não gosta de falar com jornalistas antes do espetáculo).

Curioso que seu retorno como ator se dê diante de um personagem como Krapp, um homem desiludido de 70 anos que ouve, na solidão do seu escritório, uma fita gravada por ele mesmo 30 anos antes. Por seu hábito de registrar anualmente impressões sobre o que lhe passa, Krapp se depara com a própria voz, mais jovem e firme, e os pensamentos de uma época que pensa ter sido o auge e o fim de seus anos de felicidade – e de amor.
Wilson, contudo, não admite identificação com o personagem. Seu interesse, antes, vem dessa estrutura do monólogo dialogado entre um eu do passado e um eu do presente, e o que emerge do confronto entre esses dois seres e tempos.

A elaboração do tempo sempre foi um aspecto importante no trabalho do diretor norte-americano. Quem viu “Dias Felizes” no Palácio das Artes, em agosto passado, há de se lembrar da fixidez da atriz contrastando com a sucessão de amanheceres e entardeceres marcados pela luz. “A Última Gravação de Krapp” fornece mais material para isso. Os primeiros 20 minutos da peça não têm texto. Bob Wilson, com o rosto maquiado de branco e uma patética figura, cumpre uma rotina enxuta de pequenos gestos e ações (como comer bananas), executados de modo completamente extracotidiano. “Odeio teatro psicológico e naturalista. Teatro é um mundo artificial, e Beckett concorda com isso, é um outro mundo que ele cria”, diz.

Por isso, não se estranha a caixa preta (literal) que contém o cenário, visto pelo público só depois que a quarta parede que fechava o espaço é erguida. O cenário é simetricamente organizado, e a essa paisagem visual se une uma paisagem sonora elaboradíssima a partir do instante em que um estrondo de trovão fez tremer o Theatro São Pedro e inaugurou o espetáculo.

No desenho de som criado pelo diretor, sucedem-se trovoadas de maior ou menor impacto e um denso barulho de chuva, durante o qual se distingue o granizo e os momentos de calmaria, enquanto a luz imprime riscos de pingos iluminados sobre a cena. A condição do personagem se faz conhecer não somente pelas palavras e gestos, mas por todo o invólucro – e a forma.

“Eu procuro criar uma tensão entre o que se vê e o que se escuta, em vez de simplesmente ilustrar. Posso dizer que quero matar com raiva ou sorrindo, mas, se eu disser sorrindo, será mais terrível”, afirma Wilson.


Perfeccionismo de Bob Wilson adiou estreia do espetáculo

A esta edição do Porto Alegre em Cena, vieram medalhões como Philip Glass e Peter Brook, mas nenhum espetáculo era mais esperado do que “A Última Gravação de Krapp”, com Bob Wilson. Foi, por isso, grande a apreensão quando um problema na alfândega atrasou em um dia a chegada do cenário à capital gaúcha, onde estrearia na sexta-feira. Perfeccionista como é, Bob Wilson decretou o adiamento em um dia, complicando a agenda de não poucos que foram à cidade especialmente para vê-lo. Tiveram que se acomodar em uma sessão extra no domingo.

Ao fim, a montagem do cenário ficou pronta a tempo, mas, mesmo assim, o encenador manteve a decisão, justificando que não teria como ensaiar o suficiente. A parte mais complicada da estrutura era a montagem e afinação da luz. E esse é também o aspecto em que Wilson é mais rigoroso. Ao chegar ao ensaio final, percebeu imediatamente uma distorção e indagou a quanto estava a luz: 50%. O ideal era 47%.

Seu preciosismo se manifesta também diante dos fotógrafos, a quem pede que não sejam feitas fotos em close. “Meus espetáculos são melhor fotografados do centro da plateia”, avisou a um, que clicava a cena em diagonal. Mais do que caprichos, são cuidados de quem constrói cenários memoráveis e os quer valorizados pela fotografia, que não deve, por exemplo, desprezar a simetria só vista frontalmente.

Ao fim de uma hora de espetáculo, sob o som das palmas calorosas de uma plateia lotada, Bob Wilson voltou quatro vezes ao centro do palco fazendo firulas. Depois que o extremo rigor do artista e o conhecimento acumulado por anos de criação teatral surtiram seu efeito, ele está livre para usufruir.


Passagens pelo Brasil
Bob Wilson tinha 33 anos quando veio pela primeira vez ao Brasil com “A Vida e a Época de Dave Clarck” (na verdade, “A Vida e a Época de Joseph Stalin”, rebatizada por temor da ditadura). Foi tremendo, então, o impacto de seu teatro. Durante a encenação que durava 12 horas, o público era livre para entrar e sair conforme preferisse.

Em 2008, o encenador norte-americano reencontrou o caminho para o Brasil, mas veio sem espetáculo, para participar de uma palestra em São Paulo e de uma conferência no Porto Alegre em Cena, onde estreitou relações com o diretor do festival gaúcho, Luciano Alabarse. No ano seguinte, a turnê de “Quartett”, com Isapelle Huppert, dirigida por Bob Wilson, passou pelas duas cidades. E, em 2010, veio “Dias Felizes”, que se apresentou no Porto Alegre em Cena e no Festival Internacional de Teatro de Palco e Rua de Belo Horizonte.


Thêàtre du Soleil começa turnê em outubro
Após uma retumbante passagem pelo Brasil em 2007, quando apresentou “Les Ephémères” no Porto Alegre em Cena e na cidade de São Paulo, com ingressos vendidos em poucas horas, a diretora francesa Ariane Mnouchkine retornará ao Brasil – e ao festival – com seu mítico grupo Thêàtre du Soleil para três etapas de apresentações do espetáculo “Os Náufragos da Louca Esperança”, inspirado no romance póstumo “Os Náufragos do Jonathan”, de Julio Verne.

Entre 5 e 23 de outubro, faz temporada no Sesc Belezinho, em São Paulo, já com ingressos esgotados. O Rio de Janeiro conseguiu espaço na turnê, e receberá a trupe de 8 a 19 de novembro, no HSBC Arena. A data da venda dos ingressos ainda não foi divulgada.

Para encerrar, o Thêatre Du Soleil retornará a capital gaúcha em dezembro, para se apresentar fora de época pelo Porto Alegre em Cena.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Laurie Anderson no CCBB carioca: uma grande descoberta


Estive no Rio na semana passada entrevistando as atrizes francesas Catherine Deneuve, Sandrine Bonnaire e Audrey Tautou, que participaram da edição deste ano do Festival Varilux do Cinema Francês, e graças ao meu colega Roger Lerina, jornalista do Zero Hora, tive a sorte de conhecer o trabalho ímpar de outra mulher: Laurie Anderson.

Ele me guiou em uma visitinha, infelizmente muito rápida, ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde fica em cartaz até o dia 26 deste mês uma mostra retrospectiva desta artista norte-americana considerada uma das mais importantes da cena contemporânea. Perdoem-me a ignorância por não conhecer o trabalho desta fantástica artista, que desde os anos 60 surpreende por suas performances impactantes e de grande força poética.

Com curadoria de Marcello Dantas, a mostra chamada I in U – Eu em Tu, exibe, pela primeira vez no Brasil, 31 obras, entre instalações, fotografias, desenhos, vídeos, músicas e documentações de performance da artista, que esteve no local, no dia de abertura, realizando uma performance em toca violino sobre um bloco de gelo até que ele derreta. Quem não conferiu ao vivo, pode ver o número em vídeo e em fotos.

O que mais me impressionou ao ver a mostra foi a capacidade da artista de mesclar, de uma forma orgânica como poucos artistas conseguem, as mais diferentes linguagens: da escultura à literatura, da pintura à música, da fotografia ao vídeo. É a palavra, aliás, que alinhava quase todo o trabalho mostrado ali no CCBB. Andersen é uma contadora de históridas das mais inventivas como se pode verificar na instalação "Desilusão", uma série de curtas peças de mistério que combina violino, marionetes, imagens e palavras criadas sob a crença de que histórias podem criar o mundo e, ao mesmo tempo, destruí-lo. Em meio às narrativas, há frases como:

"E quando as lágrimas caem dos meus dois olhos, elas caem do meu olho direito porque eu amo você. E elas caem do meu olho esquerdo porque eu não consigo suportar você."

"Sonhei que era um cão numa exibição de cães e meu pai foi à exibição de cães e disse: 'Esse é um cachorro muito bom. Gosto desse cachorro'."

Entre as obras, também há uma série de fotografias em que a Anderson se retrata dormindo nos mais diversos lugares, na rua, na praia gelada, em uma biblioteca, em um órgão público. Ela fez o experimento para saber se seus sonhos seriam influenciados pelos espaços onde repousava. Também há violinos confeccionados por ela; livros em que o conteúdo está relacionado exclusivamente ao ato de "virar páginas"; um diário pessoal em texto e imagem; a videoinstalação inédita Gray Rabbit, com a participação de seu marido, o músico Lou Reed. Então, corra, se puder ver a mostra.

sábado, 30 de abril de 2011

Em 2011, Festival de Curitiba encontrou sua vocação

por Luciana Romagnolli

Passado um mês do Festival de Curitiba, ainda é tempo de dizer que este foi um ano de consolidação, potencialmente divisor de águas na história do evento. Desde que o Fringe cresceu desenfreadamente e a palavra "teatro" foi retirada do nome, acusando a intenção de ampliar quanto se possa a abrangência do evento para outras artes e atividades, ficou claro que, de parte da produção, o investimento seria em dar volume a um evento de proporções grandiosas que atendesse a públicos diversificados e a produções artísticas também das mais distintas, desde o teatro mais comercial, produzido em série, ao de pesquisa. Pelo que entendo, fazer a distinção e a seleção simplesmente não estava no campo de interesse da organização do festival.  Lutar contra as motivações e a visão de quem o realiza não surte efeito. Por isso tentativas como o abaixo-assinado para que houvesse curadoria no Fringe fracassaram.

Pois bem. O festival me parece finalmente ter encontrado sua vocação, a de que os artistas se articulem aproveitando a infraestrutura do festival para propor recortes, pontos de vista sobre seus trabalhos, em conjunto. O que a organização oferece está dado (não quero dizer que seja impossível barganhar uma coprodução ou outros avanços, falo do modelo de evento), um espaço de atuação e visibilidade amplo, como um enorme guarda-chuva. Cabe aos artistas, sobretudo aos grupos, descobrir que podem se aglutinar e chamar a atenção para si nessa multidão disforme.

Iniciativas semelhantes vinham acontecendo há alguns anos, mas foi em 2011 que se viu uma variedade delas funcionamento ao mesmo tempo, delineando programações com afinidades estéticas e sujeitas a alguma curadoria, a alguma seleção: deu-se o retorno da Mostra Novos Repertórios, a continuidade e crescimento do Coletivo Pequenos Conteúdos, a novidade da Mostra Outros Lugares, mais uma edição de leituras e uma encenação na Mostra do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-Paraná, a reunião de espetáculos paulistas e do amazonse Francisco Carlos na Conexão Roosevelt, os encontros na sede da Cia. Brasileira pela Mostra Petrobrás, e outros mais. O que isso trouxe de novo? Reforço na divulgação, um pensamento crítico/estético por trás de cada proposta, e a distinção entre centenas de espetáculos, que permite enfim ao espectador (o leigo e o profissional) enxergar com alguma nitidez o que a mostra tem a oferecer e poder fazer suas próprias escolhas. Tanto que nada disso passou despercebido da imprensa nacional, que desta vez pôs o teatro curitibano na vitrine.

Não foi à toa que a maioria dessas mostras continha produções curitibanas. Fora a óbvia facilidade maior dos artistas da cidade-sede se organizarem, isso reflete um amadurecimento da cena curitibana, que teve em 2010 um de seus anos mais felizes. Alguns grupos importantes ainda ficaram de fora, caso da Vigor Mortis, que foca seu interesse em múltiplos projetos neste ano mas decidiu se abster do festival, descrente dele. Ou da Cia. Silenciosa. E da Obragem. Mas a maioria estava lá: desde as companhias muito jovens que se arriscam ainda tentando descobrir a própria linguagem (como muito se vê no Pequenos Conteúdos) às adultas Cia. Brasileira e a Obragem, em sua melhor fase.

E há a pequena revolução que o Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR está realizando na cidade. Fez de Curitiba um ambiente de inquietação autoral, instigou em quem já escrevia e em quem ainda não escrevia o desejo de desenvolver uma dramaturgia justa com o ser humano e com o seu tempo, perscrutando o que há de particular em cada autor, contra a reprodução do imaginário clássico, televisivo ou outro que seja. Obviamente esse é um caminho acidentado, as tentativas primeiras vêm muitas vezes vincadas pelo esforço, ocasionalmente reproduzem estratégias "contemporâneas" sem organicidade, ou falta densidade, mas é daí que podem surgir (e surgem) obras potentes. Diante desse cenário favorável, só se pode esperar que haja, de fato, continuidade.

Quanto aos grupos de fora, podem seguir o exemplo. Este ano Minas Gerais esboçou fazê-lo, ainda timidamente, com uma reunião de esforços para veicular anúncios. Uma mostra (formatada pelos próprios artistas mineiros) poderia surtir mais efeito por lá.


*

Em três dias de permanência, pude ver apenas três espetáculos da Mostra Contemporânea. Lamento, porque as notícias que chegaram a mim relatam uma seleção com maior qualidade do que a média recente.

Lamento também uma das escolhas - o que só reforça para mim a ideia de que o interesse do teatro hoje está realmente nos grupos. Um Coração Fraco (foto acima), ao contrário, é um daqueles encontros episódicos. Teatro de ilustração do texto, extremamente retido às palavras de Dostoiévski, se constroi pelos diálogos e não encontra forma definidida para a narração: ficam os personagens alternados, perdidos "fora" do cenário, a falar um texto que não lhes parece dizer respeito. Não traz na encenação algo que instigue a reflexão e o recomende à mostra oficial de um festival. Tem Caio Blat, ator que felizmente é mais do que uma celebridade televisiva para atrair público, conhece o ofício.

Minhas duas outras escolhas pairaram sobre grupos estabelecidos de quem me intessa acompanhar a trajetória. Sobre Tio Vânia - Aos que Virão Depois de Nós, do Galpão, publiquei matéria no O Tempo e crítica aqui, e em breve postarei a íntegra das boas conversas com a diretora Yara de Novaes e a atriz Fernanda Vianna.

Antes da Coisa Toda Começar (foto acima), do grupo Armazém, se constroi de maneira mais desorganizada (ou desnorteada) do que o habitual na direção de Paulo de Moraes, dentro de um cenário duro, que parece confiná-lo. Mas algumas coisas intrigam na montagem. É sabido que o Armazém faz desse espetáculo uma reflexão sobre si mesmo e sobre a arte de ator. Ambientado em um teatro abandonado, onde reside o fantasma de um ator, o cenário remete a outros de montagens do grupo, com direito às "janelas" giratórias tais como havia em Toda Nudez Será Castigada. Além do fantasma, são protagonistas três atores cuja marca comum é o comportamento egóico, centrado até as últimas consequências nos próprios desejos, vontades, volúpias e dores, que são esmiuçados, revirados, cultivados, de modo que quando o sofrimento desmedido causado pela necessida de compensação desse EU gigantesco e imaturo já não cabe no corpo, sai como grito, berro, histeria, tentativa de suicídio, rock.

E aí Rosana Stavis, atriz curitibana, tem a oportunidade de expor uma potência dramática inédita, cuja energia se extravasa pela voz, sobretudo o canto, enquanto o corpo se molda pela apatia.
por Luciana Romagnolli

Estive ausente do blog por quase um mês, nem mesmo ao que vi no Festival de Curitiba consegui dar vazão, por conta de um pequeno projeto pessoal, agora terminado (dedos cruzados). Espero poder retomar as atividades por aqui.

Abraço

sábado, 2 de abril de 2011

Impressões sobre o ensaio de Tio Vânia, do Grupo Galpão

por Luciana Romagnolli

O Grupo Galpão fez hoje pela manhã um ensaio aberto de Tio Vânia, no Cine Horto. A diretora Yara de Novaes observou tudo da última fileira da plateia. O público, aliás, vê o espetáculo de uma arquibancada mais alta do que o palco, como deve ser na estreia, dia 8 de abril, às 21 horas, no tal Teatro Bom Jesus, durante o Festival de Curitiba.



O cenário inicial revela apenas a grande mesa de madeira, sólida, onde está servido o café da manhã, no quintal da casa imaginada por Tchékhov. Em torno (e até em cima) dela, transitam os personagens da peça, desvelando aos poucos suas relações e (des)motivações. O texto original é respeitado quase na íntegra, sem que isso impeça um e outro caco nascido dos ensaios - geralmente, tentando capturar o espectador pelo artifício cômico, ao mesmo tempo em que dão mais naturalidade à realidade física da cena.

A chave das atuações é realista, como nunca se viu na trajetória do grupo. Pode também causar algum estranhamento a distribuição dos papéis. Embora seja cedo para afirmar qualquer coisa, pois nem estreia houve ainda. Por outro lado, já sobressai a interpretação segura de Eduardo Moreira (foto) como Ástrov, o médico consciente das falhas humanas, inclusive das que ameaçam o meio ambiente, mas suscetível a um copo de vodka. O intérprete cede ao personagem a fala vigorosa e entusiasmada, além de resquícios de encantamento de um belo homem já em decadência. Há outros atores que ainda têm um caminho a cumprir até dar contornos mais precisos aos seus personagens, justificando o impacto que causam ao redor. Resta tempo.

E é de tempo - entre outras coisas - que o espetáculo trata. Um tempo de transição e desesperança, que lança para o amanhã a possibilidade de uma vida melhor, porque o passado foi desperdiçado e o presente se perde no tédio mais profundo. Se há algo a não se pôr em dúvida, é a atualidade cruel das palavras de Tchékhov e da inação à qual se atam. O que não senti ainda, nesse primeiro contato com a montagem, foi um tempo de encenação elaborado a partir desse tempo problematizado textualmente.

Quando cai a tela branca que isola o cenário-jardim, descortina-se uma salão amplo ocupado apenas por umas cadeiras de madeira e pilares em destruição. Estes, funcionam mais como possível metáfora do que esteticamente. Movem-se aos empurrões dos atores, trocam de lugar, reelaboram o espaço sem de fato construir ambientes definíveis. Concedem dinâmica aos deslocamentos e à ocupação espacial, como não há (por princípio) na apatia dos personagens de Tchékhov.

Para dizer mais, só depois da estreia.     

Para ver em Curitiba, se informe aqui.






 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A dimensão criativa do presente, do passado e do futuro

por Luciana Romagnolli

Abaixo, as respostas da diretora Sueli Araújo, da CiaSenhas, para a entrevista sobre teatro contemporâneo. As fotos são de Homem Piano - Uma Instalação para a Memória, em cartaz no Fringe.


O que você entende por teatro contemporâneo e como articula operações e conceitos desse teatro na sua pesquisa de linguagem - por exemplo, em Homem Piano?
Há uma grande polêmica sobre o que seja teatro contemporâneo. De minha parte, penso que ser contemporâneo na arte é procurar se movimentar em um território cuja poética seja o resultado de indagações sobre um presente que mantém contato com o passado, mas intui o futuro. Na CiaSenhas o que nos interessa é menos a discussão conceitual do que seja teatro contemporâneo e mais a dimensão criativa destes três tempos paralelos.

A cada momento observamos transformações na realidade imediata e elas impulsionam a poética de nossos espetáculos. Em Homem Piano – uma instalação para a memória não foi diferente. Nele, tínhamos a intenção de encontrar outros lugares de articulação entre poética e presença, entre estrutura narrativa e lírica, entre realidade e ficção, entre platéia e ator. A nós pareceu que a memória/lembranças/esquecimentos era um tema importante para os nossos dias e a afetividade, uma alternativa com o qual o presente alimenta o futuro.

O que esse espetáculo significa na carreira da CiaSenhas? Me parece que avança em várias frentes, como a relação com o espaço e com o público e a presença cênica do ator.
Sem dúvidas o Homem Piano é um trabalho que redimensiona práticas anteriores da CiaSenhas. Em primeiro lugar porque ele legitima o estudo e a pesquisa como alicerces da criação artística. Em segundo lugar porque nos permitiu desenvolver procedimentos que já a algum tempo vinham nos provocando – como por exemplo maior participação da platéia na construção da escritura cênica, desvendamento do espaço de atuação e radicalização das instâncias ator e performer.


Identifico nos últimos cinco anos (pelo menos) uma tendência em Curitiba ao teatro narrativo, de personagens não delineados, pouca ação e uma relação diferente com o público.Como você percebe o teatro contemporâneo praticado na cena curitibana?
Parece que a narrativização da cena é um fenômeno mundial. Na medida em que o drama é problematizado surgem e reaparecem novas abordagens da cena. O personagem dramaticamente delineado cede espaço para construções mais sugestivas, mais ambíguas, cuja força motriz oscila entre visualidade, sonoridade e relação entre atores e atores e platéia. No caso das estruturas narrativas, a sua premissa é a experiência compartilhada. Ela mobiliza corpos coletivos e estados corporais, imagens criadas e situações reais, verdade e ficção. A narrativa na cena é fundamental porque, mais do que a compreensão dos fatos, a experiência vivida se instaura pela presença. Aspectos importantíssimos no teatro que se quer hoje.

É possível que por Curitiba ser reconhecidamente uma capital de ótimos contistas a nossa subjetividade dialogue muito bem com esta expressão. Nada mais legítimo a exploração desta na cena teatral. Mais isso é pura especulação particular.


O público curitibano processa bem essas novas linguagens ou o espectador médio da cidade ainda se mostra atrelado às concepções aristotélicas ou de um teatro moderno? Isso prejudica a fruição das peças?
Eu tendo a acreditar que o Teatro (relação entre um ou mais indivíduos, diante do outro) seja potente independente de que qualquer linguagem por mais popular ou arrojada que ela seja. E que neste sentido qualquer um pode desfrutar do Bom teatro, em maior ou menor grau de fruição, devido ao nível de conhecimento e abertura que o espectador pode ter. Isso não quer dizer que não se deva exigir do poder público e privado programas sérios de formação de platéia. Não podemos ser ingênuos ao ponto de nos distanciarmos do país em que vivemos e assumir a atitude egocêntrica: faço arte para me expressar e ponto final. Não acredito nisso. No teatro a arte é com o Outro. E o Outro, no Brasil, em sua maioria, ainda carece de “alfabetização” cultural; fruir a arte é um direito de todas as pessoas. É o lugar de construção de imaginário e de elaborações subjetivas diversas. Isso significa permitir ao Outro a assimilação de novas manifestações, a capacidade de articular passado e futuro e se posicionar diante daquilo que participa. É necessário que o espectador tenha a possibilidade de odiar ou amar um espetáculo de teatro sem necessariamente rejeita-lo porque este lhe causa o desconforto da incompreensão ou frustra a expectativa de algo “conhecido”, ou o já visto ou consolidado como um modelo de arte teatral.

Em Curitiba, vejo que cada vez mais artistas e público tentam se encontrar no “desconhecido” que o teatro pode proporcionar. O desejo de acesso é fato, faltam ações claras comprometidas a médio e longo prazo com a arte, o teatro e o público. Só assim é possível caminhar, por vezes emparelhados, por diferentes propostas, artistas e público.

O foco na palavra

por Luciana Romagnolli
Conversa por e-mail com Marcos Damaceno, diretor de Antes do Fim (fotos), em cartaz no Fringe pela mostra Outros Lugares, e coordenador do Núcleo de Dramaturgia Sesi/PR, sobre a dramaturgia contemporânea. 

PS. Respeitei as maíusculas dele.
Para começar, o que você entende por teatro contemporâneo e como articula operações e conceitos desse teatro no desenvolvimento da sua linguagem como dramaturgo e diretor? 
Difícil discorrer definições, colocar palavras que clareiem o que seja o dito Teatro Contemporâneo, teatro feito de pluralidades e ecletismos, contrapontos e desvios. Preferiria me juntar ao Zé Celso e dizer que “só uso o termo contemporâneo porque acho o termo moderno um tanto antiquado”.  Mas, na verdade, não penso que seja assim tão simples. Falo que é difícil por ser um teatro feito de multiplicidades e vertentes que tendem a se esquivar de categorizações objetivas.  Há desde o teatro híbrido, que flerta com a performance e a dança e outras artes, ao Teatro Narrativo (ou a tão bem-vinda Restauração do Teatro Narrativo, como defende Luis Alberto de Abreu). Do Teatro de Imagens, que apropria-se da tecnologia como suporte de linguagem, ao teatro que parte da apropriações de romances.
Mas, não tanto pela vertente (ou categorização), o Teatro Contemporâneo se caracteriza (ou deveria se caracterizar), pela capacidade (ou ao menos intento) de suscitar na plateia novas percepções, novas provocações e questionamentos, não raro opondo-se às regras, normas e convenções dominantes e a discursos estabelecidos. Um teatro que consegue captar elementos de nossos dias e transpô-los à cena, recriando-os de forma como só a subjetividade dá conta de perceber e elaborar.  Recriações da vida que se abrem à exploração de outros universos, à busca de novas linguagens (é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito), a universos e linguagens que nos confrontam com nossas próprias verdades, valores e crenças, possibilitando, assim, ampliar nossa visão e expandir nossa consciência acerca da vida, da realidade, do homem, de nós mesmos, eternos enigmas.    
Como dramaturgo não penso muito em conceitos. Mas claro que o que venho estudando deve influir no momento da criação. Acredito que assim é que é.
Como diretor meu foco principal tem sido a potencialização da palavra no teatro. A exploração da palavra pelos atores. Ganhar e sustentar a atenção da platéia, provocando sua imaginação, quase que exclusivamente pela palavra. Sou antes de tudo um homem da palavra no teatro.  
Há alguns conceitos do Teatro Contemporâneo que percebo que se alinham ao que venho explorando, como por exemplo, o foco na palavra em si, a palavra como ação e elemento estruturador e autônomo da criação (em detrimento da palavra como ferramenta para criação de personagem, trama, enredo, ação, diálogos, etc); o foco na palavra poética e seu poder encantatório; a exploração do estranhamento na linguagem; a manipulação (ou recriação) de realidade própria através da linguagem; a mescla de gêneros (fusão do dramático, narrativo e lírico).
São afinidades que percebo entre o teatro que venho desenvolvendo e características do Teatro Contemporâneo, que são casuais (não há acaso, tudo bem, eu sei). Digo casuais porque nunca pensei em “Ah, vou fazer teatro contemporâneo”, assim como muita gente hoje diz “eu faço teatro de pesquisa” só para ter maiores chances de abocanhar recursos em algum edital público.  
E especificamente no caso da peça Antes do Fim?  
Em Antes do Fim, nos debruçamos em criar uma encenação com foco na palavra poética, na proposta do estranhamento (criação de novo universo capaz de despertar novas percepções e sensações),  na mescla dos gêneros dramático, narrativo e lírico e no experimento com a manipulação da linguagem que fosse correspondente cênico e de atuação às propostas estéticas trabalhas pelo autor.  Por tratar-se de um texto inédito, contemporâneo, o interessante é focar no texto, não tentar imprimir algo nele.  Ao contrário de um clássico, que já foi encenado muitas vezes, em que é interessante ter uma leitura pessoal sobre ele, promover quase uma reescrita. Aos inéditos deve haver uma fidelidade no sentido de deixar o texto aparecer.
Identifico nos últimos cinco anos (pelo menos) uma tendência em Curitiba ao teatro narrativo, de personagens não delineados, pouca ação e uma relação diferente com o público. Como você percebe o teatro contemporâneo praticado na cena curitibana? 
O que percebo de positivo é o crescente fortalecimento de (e o surgimento de vários outros)  Teatro de Grupo, que vem se estabelecendo como espaços de criação de trabalhos instigantes e com continuidade. Pesquisa e aprofundamento de linguagem só se fazem com continuidade. O fortalecimento dos grupos e companhias (e não mais tanto a hegemonia do encenador como no Teatro Moderno) parece ser a configuração marcante do atual teatro curitibano. Há alguns grupos que honram o teatro investigativo e representam bem essa inquietação característica do Teatro Contemporâneo na busca de novas linguagens, apesar de serem poucos os que nos apresentam real inovação ou avanço em termos estéticos.
A narrativa desde sempre teve lugar marcante na arte teatral. Os modos épico, dramático e lírico sempre se permearam. Houve um longo período em que o dramático imperou, tendo o narrativo ganhado novo vigor, no mundo todo, a partir dos 70, 80.
Quem são os grupos ou diretores que se movem nesse sentido e quais as questões ou tendências mais visíveis? 
Aprecio o trabalho do Marcio Abreu e sua companhia. Sua competência no desenvolvimento de linguagem e estética próprias, mantendo forte interlocução com o público. 
O público curitibano processa bem essas novas linguagens ou o espectador médio da cidade ainda se mostra atrelado às concepções aristotélicas ou de um teatro moderno? Isso prejudica a fruição das peças? 
Sofro com isso todos os dias, pois não é o público que está atrelado a essas concepções, mas a maioria dos próprios “fazedores de teatro” (dentro do Núcleo estamos trabalhando para obter algum avanço nesse sentido).
Quanto ao público curitibano (que tem, não sei de onde, a fama de exigente, fama que seja talvez devida à frieza e renitisse próprias do povo da terra dos pinheirais) é igualmente complexo discorrer.  Afinal há públicos e públicos tanto quanto há teatros e teatros.A maior fatia do público sempre será aquela em busca de diversão rápida e ligeira, de preferência com algum famoso no elenco, para depois poder se gabar entre os amigos. Mas há também, mas muito mais diminuto, mas não menos considerável, um crescente publico de Teatro de Pesquisa com referencias e discernimentos que o instrumentaliza a ler espetáculos que flertam com linguagem contemporâneas.  Enfim, percebo a existência de um público sofisticado, porem bastante diminuto.
Gosto de citar o exemplo do Club Noir, de SP (que considero altamente investigativo, envolto com as questões mais instigantes do Teatro Contemporâneo). Acredito que o trabalho do Club Noir seria impossível de se desenvolver com êxito no Rio de Janeiro e que, penso, já teria alguma possibilidade de sobrevivência em Curitiba, desde que se contentasse com curtas temporadas e parcas pessoas na plateia.  Porém, mesmo em São Paulo, cidade que tem amplo e diversificado publico de teatro, companhias que se propõem a investigar novas linguagens sabem que tem que enfrentar o fenômeno de formação de platéia. É sabido que grupos de teatro de pesquisa devem se dedicar a formação de novas platéias para seus próprios espetáculos.  Processo a ser conquistado de forma lenta e gradualmente, num trabalho contínuo ao longo de vários e vários anos.
Do outro lado da ponta do “público sofisticado” me ensinou muito a experiência de cumprir apresentações de Psicose 4h48, há alguns anos, nos bairros mais afastados de Curitiba, num projeto da FCC que visava a democratização do acesso aos bens artísticos da cidade.  O êxito da apresentação de peça, considerada de apreciação “difícil” foi muito questionada por membros da Fundação. Mas lembro-me bem que a peça (entre muitas outras de apreciação mais fácil) foi a que por fim teve maior “sucesso” com o público.  Nunca vou me esquecer da apresentação na Vila Verde (vila mais violenta da cidade) feita para 80 pessoas que nunca tinham assistido teatro na vida. A platéia era na maioria de adolescentes com cara de malvados que pareciam só estar ali por obrigação do professor.  Foi inesquecível ver, que aos 15 minutos de apresentação, os mano e as mina já estavam praticamente todos chorando, emocionados e envolvidos com ao que assistiam. 

Os descaminhos da tragédia contemporânea

por Luciana Romagnolli

*Crítica da peça Doce Ismênia, publicada no jornal O Tempo.



Na tragédia grega, Ismênia é uma personagem marginal. Nunca tentou tomar as rédeas do próprio destino como o pai, Édipo. Nem demonstrou a força da irmã Antígona, que enfrentou o rei para dar enterro digno ao irmão. Ismênia nasceu sob o signo da passividade, figurante de tramas alheias. Encontrar uma história individual para a personagem foi o impulso seguido por Rita Clemente no espetáculo "Doce Ismênia" (foto de Guto Muniz), em cartaz no Oi Futuro.

Em companhia de Daniel Toledo (também assistente de direção), Rita desenvolveu uma dramaturgia que trouxesse a questão ao mundo contemporâneo. Para tanto, vislumbrou um caminho que atinge uma multidão de anônimos de qualquer época: a tensão entre a história que uma pessoa gostaria de ter vivido e aquela que se impõe a ela.

Escorada nessa proposição potente - e nas habilidades da diretora como atriz experiente, a exemplo do que já se viu no espetáculo "Dias Felizes" -, a montagem de "Doce Ismênia" apresenta a personagem como uma mulher solitária e retraída, cujo sonho máximo é a vida simples, mas a quem espreita o destino trágico da matriz familiar.

A expectativa da morte precoce é acirrada pela presença do pai (Isaías Campara Neto) e da irmã (Patrícia Siqueira), sentados à esquerda, em cadeiras de plateia, tal qual um coro grego, vertido em representantes do público teatral. É interessante o exercício de metalinguagem, que abre lacunas textuais para comentários leves sobre os rumos da encenação, além de referências à figura de Édipo - Antígona, por sua vez, fica quase incógnita.

No outro lado do cenário, iluminado por postes de luz altos e recurvados, um mecânico (Olavo de Castro) repara a carcaça de um fusca, contrapondo à malfadada tragédia a chance de a personagem cumprir um destino comum.

Obstáculos. A montagem não chega a elaborar uma proposta para as questões que deslocam Ismênia de sua marginalidade histórica. Antes, apresenta no palco o problema do qual parte e seus descaminhos. A decisão faz lembrar os conflitos e incertezas sobre "Barbazul" que o Teatro Andante pôs em cena.

O primeiro obstáculo que enfrentam é pensar o que seria uma tragédia contemporânea. A resposta aponta para um mundo onde já não há duelos. Opta-se, então, pelo acidente de carro.

Sem negar que o trânsito possa ser motivo trágico hoje, fica ao público a possibilidade de contestar uma escolha que retira a tragédia do violento embate humano e a deposita no choque homem-máquina, sem explorar mais o componente humano da irremediável solidão de Ismênia.

A essa inconsistência no desenvolvimento da personagem, junta-se um desnível nítido entre as qualidades dos intérpretes, o que esvazia as piadas metateatrais entregues a Isaías Campara Neto, enquanto as falas de Patrícia Siqueira vêm desprovidas de inflexão. Seus personagens se tornam acessórios. Para a atriz Rita Clemente, é ocasião de sobressair e demonstrar sua destreza. Para a diretora Rita Clemente, faltou o equilíbrio.

Agenda
O que. "Doce Ismênia"
Quando . Hoje, às 21h; amanhã, às 19h e 21h; e dom., às 19h
Onde. Teatro do Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001)
Quanto. R$ 15

quarta-feira, 30 de março de 2011

O frescor do encontro com o público

por Luciana Romagnolli





Desta vez, quem fala é Marcio Abreu, diretor da Cia. Brasileira de Teatro, que encena Oxigênio durante o Fringe. Para quem não viu, é minha principal recomendação para esta edição. Vamos às respostas:

Qual o lugar e a função do teatro na sociedade midiatizada e individualista em que vivemos? 
É o lugar da escuta, da ação compartilhada, do encontro em lugares improváveis, da ressignificação do humano. O teatro, assim como toda arte, tem um aspecto de inutilidade e, muito embora eu acredite na importância de afirmar essa inutilidade, admito uma certa função da arte por trás de tudo. É contraditório: a própria inutilidade exerce uma função, como, por exemplo, propor novas relações das pessoas com a noção de tempo. Quando se vai ao teatro, vive-se um tempo relativizado. Isso não é necessariamente útil, mas estimula a sensibilidade e pode promover novas percepções do outro, de si mesmo e do mundo.

O que você, à frente da Cia. Brasileira, entende por teatro contemporâneo? Que é o mesmo que eu perguntar o que lhe interessa dentro do arcabouço do que se convencionou chamar assim. 
É uma questão interessante, que só dá pra tentar responder de dentro da fogueira. Definitivamente penso que teatro contemporâneo não está necessariamente ligado à noção de teatro que se faz nos dias de hoje. Nem sempre essa duas categorias coincidem. Penso que existem pelo menos duas questões das quais não se pode escapar quando falamos de teatro contemporâneo: a primeira é o FAZER repensando os modelos que existem até então (sobretudo ampliando as noções de escrita para teatro), a segunda é a PRESENÇA do ator em relação ao público e como, a partir dessa relação, surge um novo conceito de encenação, favorecido pelo estatuto fundamental da APRESENTAÇÃO.

Você acha que o espectador médio ainda carrega expectativas antigas, relacionadas a um teatro moderno ou aristotélico, com enredo, personagens e ação, ao assistir a um espetáculo teatral hoje? Quais seriam as maiores dificuldades? Isso prejudica a relação com a obra? 
Sim, acho que esse fenômeno acontece, mas talvez em menor escala do que imaginamos. Isso é, em geral, um problema de leitura em amplo sentido e não tem a ver com ter mais ou menos informação, experiência ou cultura. Tem a ver com condicionamentos sociais. Se eu leio apenas a minha expectativa, ou seja, se eu só consigo ver numa obra aquilo que eu espero dela, certamente a minha chance de ficar frustrado é grande. Se eu me posiciono aberto a uma experiência, seja ela qual for, serei mais permeável a tudo e poderei exercer meu senso crítico, formular opiniões, responder sensivelmente como leitor ou espectador. Tenho a impressão que um público supostamente menos viciado, ou seja, aquele que não é pseudo intelectual, mas, ao contrário, ou não sabe nada sobre a obra ou ainda, o outro extremo, aquele que sabe muito sobre a obra, acaba por se relacionar de maneira mais potente com a arte contemporânea de um modo geral. Mas isso é apenas uma impressão de dentro da fogueira. E, infelizmente, o que acontece é que temos uma grande parcela da população que escolhe o medíocre como sensibilidade. É a famosa ignorância consentida e consciente, por escolha. Contra isso é difícil lutar. De qualquer maneira, no teatro dos dias de hoje tem espaço para o teatro contemporâneo, assim como para o teatro da confirmação das expectativas medianas. Ambos podem ter qualidades e defeitos.

Em Oxigênio e em Vida a companhia repensa o modo como o ator se coloca em cena, pela narração-performática. Como o grupo tem entendido essa relação entre ator e texto, ator e plateia? 
Antes de tudo, posso dizer que essa é uma busca de anos de trabalho. A continuidade, neste caso, é fundamental. Antes de Vida e Oxigênio, já buscávamos um frescor no encontro da cena com o público. Isso quer dizer: como mobilizar o ator e os elementos que compõem a dramaturgia para convergir na criação de um tempo real, de um momento presente, com todas as suas armadilhas e dificuldades? Por um lado isso significa o exercíco técnico de precisão em relação ao texto e à cena, assim como o exercício de abstração e "esquecimento", tudo isso simultaneamente. É desta forma que tenho trabalhado como dramaturgo e encenador e é isso que obsessivamente proponho aos atores. Em Vida e em Oxigênio, acredito que conseguimos graus diferentes, mas ainda assim significativos, de encontro com o público no tempo real. Vejo que o teatro acontece, mas a fragilidades declaradas e assimiladas.

Quem são os pensadores do teatro que mais o instigam hoje e por quê?
Nos últimos anos tenho tentado acompanhar os trabalhos do coreógrafo Jerôme Bel e da intérprete e coreógrafa Vera Mantero. Ambos trabalham na frequência da técnica associada ao frescor do encontro com o público.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A trajetória da Pausa Companhia

por Luciana Romagnolli


Prosseguindo com as entrevistas, aqui estão os comentários da Andrea Obrecht, atriz da Pausa Companhia, em cartaz no Fringe com o Roteiro Escrito com a Pena da Galhofa e a Tinta do Inconformismo (foto abaixo de Alessandra Haro). Ela faz uma boa reflexão sobre a trajetória do grupo. Só não obedeceu ao esquema de perguntas e respostas, então segue o texto corrido: 




"Suas perguntas são boas para provocar discussões em encontros, rendem bastante. Com certeza cada um da Pausa teria colocações bem pessoais sobre cada tema. Então o que escrevi abaixo não digo pela Pausa, mas por mim. 

A Pausa desde sua formação tem procurado desenvolver trabalhos que conversem com a contemporaneidade. Isso tem sido um exercício para nós. Até agora foram cinco montagens de espetáculos. Com cinco diretores e autores diferentes. A questão “teatro contemporâneo” funcionou para cada montagem de uma forma e a plateia respondeu a cada montagem de uma maneira. Isso para mim exemplifica na pratica o quão plural é pensar teatro contemporâneo e a relação da plateia com ele. 


Aperitivos, nossa primeira montagem, era uma comédia, teve um formato palco italiano, com personagens construídos a partir de uma verdade psicológica, quatro paredes e tal. As cenas contavam histórias com inicio meio e fim. A contemporaneidade dessa montagem para mim estava na dramaturgia escrita por Mark Harvey Levine, que utilizava desde recursos não realistas para desengatilhar ações entre os personagens (namorado de aluguel, paranormal, acreditar ser um super-herói), até uma cena com estrutura mais ousada que revela a história do personagem através de metáforas com cores, filmes, bebidas e diálogos não realistas. Essa foi nossa peça que atingiu um maior numero de público, com maior aceitação popular. Acho que o público no geral ainda vai ao teatro esperando encontrar histórias lineares e/ou comédias. Porém rotular nunca é saudável. A cena de Aperitivos que não era comédia, e que tinha uma estrutura mais ousada e simbólica, era tão popular quanto as outras. É difícil definir a relação do público com o teatro contemporâneo. Claro, existe o publico clichê do tipo que só quer ver espetáculo comercial (para mim, esse público não consome teatro pelo teatro, e sim entretenimento). Mas existe o público de teatro que não espera só entretenimento, e ele está crescendo cada vez mais, para esse público a linguagem contemporânea não é um empecilho, mas sim algo estimulante que provoca um diálogo direto. 


Febre - Um Sintoma Cênico (foto abaixo) foi uma prova para a gente. Aqui o espetáculo tinha em toda a sua concepção uma proposta contemporânea, desde os atores narradores, a plagicombinação na construção do roteiro, o teatro sendo reafirmado como jogo coletivo, a plateia participando ativamente, a metalinguagem servindo como reflexão a todo o momento. Um espetáculo que tinha como um dos principais objetivos discutir o teatro. Tínhamos dúvida quanto a resposta do público, e a resposta foi ótima. Uma plateia diferente (não só a panelinha do teatro) lotava as apresentações e ajudava espontaneamente na divulgação porque gostavam. Esses dois trabalhos foram completamente diferentes (pode-se dizer opostos) mas tiveram ambos uma ótima aceitação pelo público. Daí penso... o que a plateia quer é ser comunicada. Muitas vezes teatro contemporâneo soa como algo tão simbólico que para haver comunicação precisa de um manual, ou de um conhecimento intelectual prévio. E esse tipo de espetáculo muitas vezes não tem sucesso com a massa, mas não acho que isso seja culpa da contemporaneidade, e sim das opções que o artista toma.




A Pena da Galhofa e a Tinta do Inconformismo, o último trabalho da Pausa, vai para outro lugar completamente diferente do Aperitivos e conversa com o Febre (devido a presença do Fernando Kinas em ambos). Aqui o ator narrador aparece novamente, a quarta parede não existe, o teatro é reafirmado todo o tempo como um jogo coletivo, o roteiro é construído a partir de uma colagem, a ideia de se contar uma historia com início, meio e fim não é o objetivo final da concepção do espetáculo. O teatro é colocado em questão e discutido com o público, este sim é um dos alicerces da peça. Os atores são jogadores, constroem e desconstroem personagens e ideias na frente do público, mostrando que o foco não é a magia de recursos, a catarse vindo de surpresas, a "idolatração" da construção do grande ator, mas sim o que está sendo posto em discussão. Recursos teatrais e surpreendentes existem, mas para facilitar a transmissão de uma ideia, nunca para o puro entretenimento. O público é chamado para construir ativamente a peça, escreve as lápides, come pipoca, troca ideias sobre o xadrez com os atores. Isso dá um caráter único a cada espetáculo, cada dia um publico e cada dia uma peça diferente. Abre janela para a performance. Reafirma a importância da plateia na construção da obra. A luz e o cenário são pensados para dialogar com essas ideias. Para mim, essas são características contemporâneas. 

Agora, quanto às tendências do teatro curitibano... Não tem muita produção em Curitiba que reflite amplamente sobre o que está produzindo, quais os objetivos que pretende alcançar com a montagem e qual o melhor formato para se alcançar esse objetivo. Produz-se bastante instintivamente. Não acho que a produção curitibana pensa sobre o teatro contemporâneo. Mas as ideias desse teatro permeiam aqui e ali, então é possível ver recursos contemporâneos nas montagens. Isso não significa que a montagem reflite sobre a contemporaneidade, mas sim que usa de uma estratégia contemporânea aqui e ali. Me parece que para se fazer teatro contemporâneo é preciso refletir sobre as opções, para conscientemente quebrar amarras e paradigmas. Ser contemporâneo tem a ver com a atitude do artista, não é fácil... O Kinas para mim é bastante contemporâneo por essa razão."

sábado, 26 de março de 2011

"Teatro contemporâneo não é o sangue, mas o vermelho"

por Luciana Romagnolli

Publiquei na Gazeta do Povo de hoje, em "participação especial", um caderno G Ideias sobre Teatro Contemporâneo, a partir das peças em cartaz no Festival de Curitiba. Leiam aqui:
Em busca de ousadia e experimentação
Uma questão de expectativas
A invenção na dramaturgia
Cena para um teatro da transgressão
Em tempo para apreciar a "vanguarda"

Claro que sobrou um grande material das conversas com minhas fontes e, por julgá-lo interessante, vou disponibilizar aqui. Começo pela entrevista com o dramaturgo e diretor Luiz Felipe Leprevost (o blog dele), bastante generoso em suas respostas. Confiram:

Ensaio de "O Butô Mick Jagger", fotos de Rosano Mauro.


Para começar, o que você entende por teatro contemporâneo e como articula operações e conceitos desse teatro na sua pesquisa de linguagem - por exemplo, em "O Butô Mick Jagger"?
Embora devêssemos entender por teatro contemporâneo tudo o que é produzido nos dias que correm, noto que se convencionou nomear assim uma parte bem específica do que temos visto em cena. Entenda-se: um teatro em que personagens dão lugar às subjetividades, polifonia de vozes, à imagética e sinestesia. Temos mais a música como suporte do que o enredo, ou então o enredo inserido na possibilidade do sonho, do ilógico, indiferente à regras da linearidade, promovendo fusões de tempo e espaço, exigindo do raciocínio. Narração e representação correndo simultâneas, apropriadas de ideias de distanciamento, admitindo variados pontos de vista, libertas do que se entende por causa e efeito e desenlace da trama. Assim, o teatro contemporâneo vai mais perguntando que respondendo, estruturando paradoxos, evitando ser moralizante.
Temos mais a imagem do que o discurso e, se temos o discurso, ele vem sem psicologismo, com insolência e visão de mundo singular. Todavia, não encaremos nenhum destes elementos e características como obrigatórios, ou como fossem uma receita. O que mais me encanta nas possibilidades do que pode ser de fato o teatro contemporâneo é a vocação que nele encontro para rejeitar fórmulas e modos unilaterais de se pensar e fazer e criar realidades paralelas.

No caso específico da peça "O Butô Mick Jagger", há uma apropriação explícita tanto do Butô, de seus fluxos e suas contorções ritualísticas de acesso ao reino dos mortos, como também do universo pop sucateado que se vê no rock dito clássico e em dois de seus ícones, Mick Jagger e Kurt Cobain. A escritura do texto, digo, o desenho dele na página, mimetiza a dança, quero dizer, a forma como as palavras estão espalhadas ali sugerem ao leitor que são um corpo que está dançando. E foi daqui, do texto, que eu e as atrizes partimos, para logo ver tudo se complicar ainda mais na encenação.

Identifiquei, nos últimos cinco anos pelo menos, uma tendência em Curitiba ao teatro narrativo, de personagens não delineados, pouca ação e uma relação diferente com o público. Como você percebe o teatro contemporâneo praticado na cena curitibana?
De fato, o que você identificou é muito o que venho notando também. É claro que há uma tendência no ar, uma espécie de território reconhecível, comum a todos, de onde se parte para a tentativa de cada um em ser original, pessoal, singular. De qualquer modo, o que idealizamos jamais será o que de fato conseguimos fazer, então se admitimos que somos seres imperfeitos e diferentes uns dos outros, como não teríamos obras diferentes? Claro que o que se partilha sempre é defeituoso. Acredito que a consciência disso, a desistência de querer ser deus enquanto criamos, é o que nos aproxima de nós mesmos e do público e, por conseqüência, faz-nos originais. Admito, não falei muito objetivamente sobre a cena curitibana. Mas me pergunto se os que dentro dela melhor realizam o que se está chamando de teatro contemporâneo, não são justamente os que, de um modo ou de outro, se relacionam madura e ousadamente com toda essa confusão entre ideal e forma, desejo e frustração. É um jeito meu de ver as coisas, certamente muitos pensam diferente. Que bom.

Quem são os grupos ou diretores que se movem nesse sentido e quais as questões ou
tendências mais visíveis?
A julgar pelos trabalhos da Companhia Silenciosa, do Heliogábalus, da Cia. Senhas, da Companhia Brasileira, Obragem, e Marcos Damaceno Companhia de Teatro, e da 1801, da Armadilha, Teatro de Breque, Pausa, Transitória, Súbita, Acruel, Subjétil, e o Couve-flor (algumas nomes que lembrei de cabeça agora), não há dúvida, temos uma cena com foco no contemporâneo admirável. Cada uma destas companhias tem pesquisa própria, com ênfase em aspectos diferentes (performance, texto, rito, música da fala, criação coletiva, etc), mas que se tocam e se irmanam. Sinceramente, estamos muito bem servidos. Quem acompanha estes grupos reafirma para si a todo momento que, de fato, não há formulas nem regras obrigatórias. São coletivos que se empenham na missão de não permitir que o teatro seja um museu tomado por tédio e mofo. Apostam que a comunhão em tempo presente, o que vem sendo chamado de presentificação, o compartilhamento, a interação, numa época em que somos multidões de sozinhos, quem sabe auxilie na tentativa de se devolver a humanidade ao humano.

O público curitibano processa bem essas novas linguagens ou o espectador médio da cidade ainda se mostra atrelado às concepções aristotélicas ou de um teatro moderno? Isso prejudica a fruição das peças?
Tenha a impressão que todas estas características que se revelam no teatro contemporâneo inevitavelmente refletem o modo de ser do homem contemporâneo, que é fragmentado, sem certezas definitivas, suspenso entre as necessidades básicas e a alta tecnologia, etc. Daí que entendo que o teatro que muitos de nós tem tentado fazer, por levar isso tudo em conta, apresenta um grande respeito pelo individuo e suas particularidades (por que não dizer também subjetividades?). Assim, quem sabe, estejamos conseguindo ter um teatro um pouco mais democrático, o que respeita o indivíduo justamente porque é o que implica o individuo, então, se os conteúdos implicados reverberam, naturalmente se sociabilizam. Parece-me que essencialmente é isso o que temos de diferente do teatro atrelado meramente à noções aristotélicas, e daquele cujo objetivo é provocar uma identificação no espectador com a exposição de uma fatia da vida espelhada. Sabe, tenho uma tendência a superestimar o público. Quero crer ainda nos espaços do instinto, dos sentidos que pensam antes que o cérebro. Como disse Fernando Pessoa, a inteligência é um instinto. Claro que uma minoria do público domina o repertório técnico teatral para que se cobre dela maior atenção com a cena da cidade. Mas é evidente também que toda pessoa que se coloque em situação responderá de algum modo ao que é proposto. Sou otimista em relação a isso. A pergunta é: será que os que propõe estão preparados para uma abertura real, digo, para tratar a platéia como platéia atuante? Aqueles que disserem sim verdadeiramente estarão derrubando uma série de tabus, preconceitos e medos. De todo modo, é certo que o teatro será para sempre um bicho estranho, e eu acho bom que assim se dê.



E Leprevost acrescentou:
Coisas que pensei mas não entraram nas minhas respostas:
Certamente que o teatro será para sempre um bicho estranho (e eu acho bom que seja assim). Um ornitorrinco é um bicho estranho e nem assim deixa de ser algo de nosso mundo. Além do mais, se é tão incompreensível, por que minha vizinha, que nem sequer ouviu um dia falar em arte, tem um bicho desses dentro do apartamento dela?
...
Sou o tipo de dramaturgo que escreve seus textos geralmente antes de começar os ensaios. Muitas vezes, para ser franco, nem tenho ensaios à vista, escrevo sem saber se um dia virei a ser encenado. Mas não quer dizer que eu seja um autor de gabinete (forma pejorativa com que alguns se referem aos dramaturgos) e que meus textos não possam sofrer alterações durante os ensaios para que se chegue, de comum acordo, no que é idealizado pela direção e elenco, especialmente quando sou eu mesmo o encenador – o que é raro.
...
Sabe, o que idealizamos jamais será o que de fato conseguiremos fazer. A obra que se partilha, seja durante os ensaios ou mesmo depois da estréia durante a temporada, sempre é defeituosa.
...
Não sei se acredito ser possível mudar o mundo por meio do teatro. Mas tenho fé na interação. E interação, numa época em que somos multidões de sozinhos, quem sabe auxilie na tentativa de se devolver a humanidade ao humano.
...
Não aconselho você usar os elementos que se estuda em oficinas de dramaturgia contemporânea todos eles em uma única obra. Seria até ingênuo, pois ninguém dá conta disso. É mais prudente e eficaz escolher e aplicar um ou outro procedimento de criação e construção. E, mesmo assim, pode ter certeza que se o texto for potente, se tiver algo ali a mais do que palavras amontoadas, tomará vida própria e fará o que quiser com
você. Sim, (já foi bastante dito, não é?) são os textos que nos escolhem e nos escrevem, não nós a eles. A técnica então deve ser estudada apenas para não atrapalhar a mão, que quer ser selvagem.
...
Apropriando-se da máxima de Godard, pode ser dito que o teatro contemporâneo não é o sangue, mas o vermelho.

Céu domina palco e plateia

por Luciana Romagnolli


Fui um pouco temerosa ver o show da Céu ontem à noite, no Grande Teatro Palácio das Artes. É um teatro imenso, para cantoras que se impõem no palco, e a minha lembrança de vê-la cantar em pequenos teatros (o HSBC e o Sesc da Esquina, em Curitiba), ainda na época do primeiro disco, não era das melhores. Céu dançava ensimesmada, sem encarar de frente a plateia, mexendo só os ombros, como se estivesse num mundo à parte. Os vocais imperfeitos, a difícil adaptação da sua música superproduzida para o palco. Mas algo aconteceu que o show seguinte feito em Curitiba, em agosto de 2009, no John Bull Music Hall, já para o disco "Vagarosa", foi muito mais quente. Claro que o clima de balada ajudava, as músicas dela embalaram o público numa dança malemolente e as tais imperfeições ficaram abafadas. Além disso, Céu finalmente encarou o público de frente, fazendo charme com o cabelão cacheado.

Pois que, ontem, Céu não apenas atraiu um público numeroso ao Palácio, como mostrou diante dele uma presença de palco admirável. Como boa paulista, é um tanto dura, mas não parou de dançar (e até requebrar), conversou sobre as músicas, contou que considera "Grains de Beuté" especial e assumiu a linguagem corporal de quem domina palco e plateia.

O repertório girou em torno do disco "Vagarosa", calcado no reggae com tratamento eletrônico e dedicado à preguiça. Ao vivo, Céu soa bem menos suave. Os tons baixos, sim, mantêm aquela suavidade seca do disco, porém, quando projeta a voz, sai granulada e rascante. A dicção não permite a ninguém que não conheça previamente as canções entender o que canta, e Céu acentua isso com uma divisão silábica estranha (como em "Nascente"). Seu canto é quebradiço, sua beleza está nas várias texturas vocais e criadas por instrumentos e sintetizadores.

"Espaçonave" abriu o show mostrando que a transição para o palco deixa mais à vista a falta de organicidade de sua música. Sobretudo, expõe as arestas que a produção do disco atenua. Mas arestas podem ser interessantes. O que se perde é fluidez. Algumas das melhores performances são "Bubuia", assumindo sem perda os vocais de Thalma de Freitas e Anelis Assumpção, que gravaram com ela. Outras são "Cordão da Insônia" e sua releitura para "Visgo de Jaca", de Martinho da Vila. Duas canções, sobre todas as outras, cresceram no palco, revelando força que não mostravam nos discos. "Valsa para Biu Roque" foi entoada intimamente já no bis, só voz e contrabaixo, em delicada emoção. E "Papa", com os vocais livres de pós-produção para saírem soltos e brincar, ganhou humor e vivacidade. Ainda mais, ao ser intercalada com uma deliciosa versão country de "It Takes Two to Tango".

Imperfeita, sim, mas dona de um timbre e um modo de cantar cheios de personalidade, Céu cresceu (ao menos por uma noite, ficou do tamanho do Palácio das Artes) e faz jus ao seu público que aumenta.

Sem vídeos do show de ontem disponíveis ainda, deixo o clipe de "Cangote":


E uma (menos animada) apresentação de "Papa" + "It Takes Two To Tango" em Sttutgart:



*

"A experiência é uma grande escola para performances tímidas"
O que se pode esperar do repertório desse show em Belo Horizonte? Basicamente o "Vagarosa" ou terá algumas canções diferentes e talvez até novas?
É basicamente o show do "Vagarosa" com algumas do primeiro disco também. Claro que, com o tempo, nós vamos inserindo novos elementos, mas é meio que o mesmo show mesmo.

Acompanhando três shows seus, desde o lançamento de "Céu" até a turnê de "Vagarosa", vejo que começou mais tímida no palco e agora já se mostra mais à vontade nesse lugar de exposição. Como você percebe a sua evolução nas apresentações ao vivo?
Sim, acho que com a estrada e com uma série de situações adversas, como tocar para outras culturas, fazer tours e estar esgotada de cansaço mas ter de manter a voz e a performance intactas, ou tocar em lugares públicos onde as pessoas não estão necessariamente para te ver, a experiência é de fato uma grande escola para performances tímidas! Mas, de qualquer maneira, não creio muito que uma pessoa de toda tímida iria parar em cima do palco!

Você tem se apresentado muito em festivais, no Brasil e fora. Pode fazer uma comparação sobre como se estruturam aqui e lá? Li no seu blog, por exemplo, um texto que você cita do Daniel Ganjaman criticando a separação da área vip e da popular.
Bacana poder falar um pouquinho disso. Nós temos festivais bem legais, mas acho que poderíamos ter mais, sendo o Brasil um dos países, na minha opinião, mais musicais do mundo. Acho que poderia existir um incentivo maior de iniciativas privadas, empresas e principalmente do governo pra que pudéssemos ter mais opções. Não só festivais para os artistas de grandes públicos tocarem, mas também pras bandas que estão no começo, as indies e as de médio porte. Enfim, quando volto de experiências assim, uma quantidade enorme de festivais muito bem produzidos, organizados não só para o público mas também para os artistas, democráticos e, principalmente, sem aquela enorme "barriga" na frente do palco que separa o artista de seu público e ganha o nome de área VIP, dá uma vontade enorme de que possamos caminhar cada vez mais para isso.

Você já declarou que "Vagarosa" veio de um desejo de desacelerar o ritmo apressado de trabalho e de acúmulo de dinheiro que rege o tempo atual. Conseguiu? Como está sua rotina?
Sim e não. Sim pois acho que levo a minha vida de uma maneira em que participo das coisas que amo e que são de fato importantes em minha rotina…cuidar e brincar com minha filha, encontrar amigos, tentar administrar o tempo no dia a dia com espaços para outras coisas que não sejam só "função". Várias vezes, deixo de fazer algo profissional pois não quero estar longe numa data de importância pessoal, familiar, enfim…isso é uma virtude enorme de ser minha própria "chefa". E as vezes não também, não consigo dar conta de tudo e me pego acumulando funções e ficando doida!

Você tem composto? O que tem te interessado ao fazer música?
Tenho sim, na verdade eu nunca páro de escrever, no máximo dou uma pausa quando a correria está muito brava. É muito tênue essa linha de onde começa um disco e termina outro, para mim um vai se fundindo com o outro e, quando você vê, já está com novas histórias para contar e quer ir para o estúdio gravar. Já tenho algumas ideias em mente, ainda não tenho datas nem dados práticos, mas creio que ano que vem estarei com disco novo sim. Tenho escutado muito Erasmo e um disco chamado Lambada das Quebradas, do Mestre Vieira da guitarradas. Estou completamente apaixonada por guitarrada.

Como está sua carreira internacional?
Está muito legal, mês passado eu conheci o leste europeu e fiquei impressionada com a receptividade deles com a música brasileira. Foi demais. Agora estou me preparando pra voltar para os Estados Unidos no final de abril. 

*Entrevista publicada no Jornal O Tempo, em 24/03/2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

O negro que queria ser branco

Se Anjo Negro, da Cia. Teatro Mosaico, de Cuiabá-MT, será um dos destaques da Mostra do Festival de Curitiba deste ano, ainda não se sabe. Mas já vem chamando atenção a presença nesta edição do evento de uma montagem de um dos textos mais encenados de Nelson Rodrigues feita por uma companhia distante do eixo Rio-São Paulo.
No domingo, publiquei no Caderno G, da Gazeta do Povo, uma matéria sobre o espetáculo, com entrevista do diretor da companhia, Sandro Lucose, que reproduzo abaixo.

“No Brasil, o branco não gosta do preto e o preto também não gosta do preto.” A conclusão do dramaturgo Nelson Rodrigues após uma viagem ainda adolescente ao Recife, em 1929, fez com que ele sentisse vontade de escrever uma peça sobre negros. A ideia só sairia do papel em 1946, motivada pelo convívio com o jovem ator negro Abdias do Nascimento, a quem ele dedicaria o papel do protagonista no espetáculo
Anjo Negro

, Ismael, um doutor de anel no dedo, belo, orgulhoso de si próprio, mas que trava uma batalha consigo próprio pelos sentimentos contraditórios trazidos por sua condição de ser negro.
À época, não houve quem aconselhasse o dramaturgo a conceder o papel a um negro legítimo. O próprio Ziembinski, que dirigiria o espetáculo, e incrivelmente, mesmo Abdias, votaram por um ator branco com o rosto pintado – uma espécie de regra no teatro dito “sério” no Brasil, e não apenas nos Estados Unidos.
A estreia no Teatro Phoenix, naquele mesmo ano, seria um sucesso estrondoso. A proprietária da casa, a atriz Maria Della Costa, faria Virgínia, a bela esposa branca tomada à força por Ismael, interpretado pelo ator Orlando Guy, com graxa no rosto. Ela, a quem se pode atribuir o papel de verdadeiro anjo negro, mata todos os filhos logo após o nascimento, como forma de vingança, até que conhece Elias, um homem branco que a fará sentir o desejo de se tornar livre.
De lá para cá, a tragédia foi montada pouquíssimas vezes, mesmo sendo considerada uma das obras mais intensas e poéticas de Nelson Rodrigues. Por isso, será um privilégio conferir a montagem trazida à Mostra Contemporânea do Festival de Curitiba pela Cia. Teatro Mosaico, do Mato Grosso, nos dias 6 e 7 de abril, no Teatro da Reitoria.
Em meio a tantos espetáculos cariocas e paulistas, a peça deve provocar curiosidade também pela sua origem. Sediada em Cuiabá, cidade com produção cultural ainda pouco reconhecida, a Mosaico comemora 15 anos de uma trajetória pontuada por espetáculos de verve popular, essencialmente musicais, feitos para serem encenados em espaços alternativos. Boa parte deles foram apresentados no Fringe, como o mais recente, Caravana da Ilusão, e o de maior sucesso, Auto da Estrela-Guia, que rendeu sessão extra à companhia.
A companhia adentra a Mostra Contemporânea com uma proposta diversa e após ser duplamente convidada. “Fomos convidados no ano passado, mas a gravidez da atriz principal, Joana Seibel, coincidiu com as datas do festival”, conta o diretor Sandro Lucose. Este ano, felizmente, houve nova chamada, e Anjo Negro finalmente poderá ser visto fora de Cuiabá, onde estreou em dezembro de 2009 com dez apresentações. “Faremos uma turnê nacional este ano, e a primeira cidade será Curitiba”, conta Lucose.
A dificuldade de Nelson Rodrigues para ver sua peça nos palcos foi sentida por Sandro Lucose desde que, há 10 anos, abdicou da ideia de montá-la como projeto final do curso de teatro realizado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UniRio. “Não havia atores negros suficientes na escola”, lembra. No Mato Grosso, para onde voltou após se formar, a empreitada seria ainda mais difícil diante da realidade local. “Eu me sinto na atual conjuntura com o mesmo desafio da década de 50. Os atores daqui ainda são muito jovens, não há escolas de teatro, imagine então encontrar um elenco de 13 atores negros para o espetáculo”, diz.
Após o tempo necessário para formar um elenco profissional, o diretor finalmente decidiu levar a cabo a empreitada. “Não temos ator negro em Cuiabá, então, foi preciso convidar um de fora para interpretar Ismael (Deo Garcez). Se fosse montar a peça no Rio de Janeiro, em Salvador ou no Nordeste de modo geral, penso que hoje não haveria essa dificuldade”, conta.
Para enfrentar o problema com o restante do elenco, o diretor optou por uma solução cênica não-realista, estilizada, como, por exemplo, vestir os atores brancos com indumentárias que fazem referências aos elementos das religiões afro-brasileiras como a umbanda e o candomblé. Ele também foge do espaço realista criado pelo dramaturgo buscando aproximações com a linguagem cênica contemporânea. “Nelson descreve que a platéia precisa avistar uma casa de dois andares mobiliada, mas transformei o cenário em uma gigantesca cama de casal que se transforma em outros ambientes como um grande mausoléu”, conta.
A sonoplastia, calcada no folclore e nas religiões, é feita ao vivo pelos próprios atores com instrumentos musicais e objetos como ferro, vidro e madeira. “O ator se apóia pouco na cenografia, tem que se desdobrar corporalmente. A base do espetáculo é a dança contemporânea e a capoeira” conta.
Lucose enumera as razões prováveis que fizeram a peça ser tão pouco montada. “É um texto caro, que exige muitos atores em cena, e que requer maturidade por sua densidade e pela forte referência à tragédia grega”, diz, agradecendo o apoio do Festival de Curitiba, do Banco da Amazônia, que apóia a companhia desde 2009, e do Prêmio Myriam Muniz recebido no ano passado para tornar possível a circulação do espetáculo.

Serviço
Anjo Negro (confira o serviço completo do espetáculo), da Cia. Teatro Mosaico. Dias 6 e 7 de abril, às 21 horas, no Teatro da Reitoria. Ingressos a R$ 25 e R$ 50.